
Naquele dia, acordaram, e após o natural tumulto matinal, foram juntos deixar grafado no papel aquilo que já havia em seus corações.
E ele, emocionado pelo ato e pelo gesto, lembrou-se das palavras de um grande poeta levantino, Gibran Khalil Gibran, que em O Profeta deixou uma bela mensagem sobre o amor. Pois foi, e será sempre, o amor que os aproximou, e uniu, e alegra, e dá vida a seus corações.
For you, Milady, now My Lady.
Então, Almitra disse: Fala-nos do Amor.
Ele levantou a cabeça e olhou o povo; um silêncio caiu sobre eles.
E disse com voz forte:
- Quando o amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e escarpados.
E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir.
E quando vos falar, acreditai nele; apesar de a sua voz poder quebrar os vossos sonhos
como o vento norte ao sacudir os jardins.
Porque assim como o vosso amor vos coroa, também deve crucificar-vos.
E sendo causa do crescimento, deve cuidar também da poda.
E assim como se eleva à vossa altura e acaricia os ramos mais tenros
que tremem ao sol, também penetrará ate às raízes sacudindo o seu apego a terra.
Como braçadas de trigo vos leva.
Malha-vos até ficardes nus.
Passa-vos pelo crivo para vos livrar do palhiço.
Mói-vos até à brancura.
Amassa-vos até ficardes maleáveis. Então entrega-vos ao seu fogo,
para poderdes ser o pão sagrado no festim de Deus.
Tudo isto vos fará o amor, para poderdes conhecer
os segredos do vosso coração, e por este conhecimento
vos tornardes um bocado do coração da Vida.
Mas, se no vosso medo, buscais apenas a paz do amor,
o prazer do amor, então mais vale cobrir a nudez
e sair da eira do amor, a caminho do mundo sem estações,
onde podereis rir, mas nunca todos os vossos risos,
e chorar, mas nunca todas as vossas lágrimas.
O amor só dá de si mesmo, e só recebe de si mesmo.
O amor não possui nem quer ser possuído.
Porque o amor basta ao amor.
Quando amardes, não digais:
- Deus está no meu coração,
mas antes:
- Eu estou no coração de Deus.
E não penseis que podeis guiar o curso do amor;
porque o amor, se vos julgar dignos, marcará ele o vosso curso.
O amor não tem outro desejo senão consumar-se.
Mas se amardes, e tiverdes desejos, deverão ser estes:
Fundir-se e ser um regato corrente a cantar a sua melodia à noite.
Conhecer a dor da excessiva ternura.
Ser ferido pela própria inteligência do amor, e sangrar
de bom grado e alegremente.
Acordar de manhã com um coração alado e agradecer outro dia de amor.
Descansar ao meio dia e meditar no êxtase do amor.
Voltar a casa ao crepúsculo com gratidão;
e adormecer tendo no coração uma prece pelo ser amado
e um canto de louvor na boca.